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Usina de reciclagem de pneus em Alagoas transforma resíduos em combustível industrial

Usina de reciclagem de pneus em Alagoas transforma resíduos em combustível industrial

Enquanto 450 mil toneladas de pneus inservíveis são descartadas por ano no Brasil e cada unidade pode levar até 700 anos para se decompor, empresa em Alagoas processa 3.000 pneus por dia por pirólise sem oxigênio e transforma borracha em óleo industrial, carbono negro e gás combustível

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Click Petróleo e Gás - Valdemar Medeiros - Publicado em 05/03/2026 às 14:07
 
Ciência e Tecnologia

Reciclagem de pneus no Brasil: tecnologia de pirólise transforma pneus inservíveis em óleo, negro de fumo (black carbon) e energia e pode reduzir um dos resíduos mais duradouros do planeta

A reciclagem de pneus no Brasil ainda enfrenta um desafio gigantesco: cerca de 90 milhões de pneus descartados se tornam resíduos todos os anos, o equivalente a aproximadamente 450 mil toneladas de pneus inservíveis, segundo dados da Anip (Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos). Parte desse problema começa a ganhar soluções industriais. Em Pilar, na Região Metropolitana de Maceió, a empresa Alagoas Ambiental opera uma usina de beneficiamento que transforma pneus descartados em combustível industrial e matéria-prima reciclável, evitando que esses resíduos acabem em lixões, terrenos baldios ou margens de rios.

Geração energia eólica

O avanço de tecnologias como trituração industrial e pirólise de pneus mostra que resíduos considerados praticamente permanentes podem voltar para a cadeia produtiva como energia, aço reciclado e materiais industriais, reduzindo o impacto ambiental causado pelo descarte inadequado.

Impactos ambientais dos pneus descartados e os riscos do descarte irregular

O pneu automotivo é um produto projetado para suportar anos de desgaste em contato com asfalto, variações de temperatura e grandes cargas. Quando descartado, ele mantém essa durabilidade, o que transforma o resíduo de pneus em um problema ambiental persistente.

Pneus descartados frequentemente acabam em terrenos baldios, margens de rios, lixões irregulares ou depósitos improvisados em borracharias e oficinas mecânicas. Nesses locais, podem permanecer por décadas sem qualquer tipo de tratamento.

Durante períodos de chuva, esses pneus acumulam água e se transformam em criadouros ideais para o mosquito Aedes aegypti, transmissor de doenças como dengue, zika e chikungunya. Já em períodos de seca, grandes pilhas de pneus representam risco elevado de incêndios de grande proporção.

Outro problema é a contaminação ambiental. Pneus inservíveis liberam lentamente compostos químicos presentes na borracha sintética e nos aditivos industriais usados na fabricação. Substâncias como hidrocarbonetos aromáticos e metais pesados podem infiltrar no solo e atingir o lençol freático. No Brasil, o volume desse resíduo cresce junto com a expansão da frota de veículos. Os fabricantes colocam mais de 50 milhões de pneus novos por ano no mercado brasileiro.

Para reduzir o impacto ambiental, a legislação exige que as empresas realizem a logística reversa de pneus, retirando 1,2 pneu inservível para cada pneu novo comercializado.

Usina de reciclagem de pneus em Alagoas transforma resíduos em combustível industrial

Na cidade de Pilar, na Região Metropolitana de Maceió, uma iniciativa industrial busca mudar essa lógica. A empresa Alagoas Ambiental opera uma Central de Tratamento de Resíduos instalada em uma área de aproximadamente 104 hectares às margens da BR-316.

No final de 2023, a empresa inaugurou uma usina de beneficiamento de pneus inservíveis com capacidade de processar até duas toneladas de pneus por hora. Esse volume corresponde a cerca de 200 pneus de passeio por hora, o que permite triturar aproximadamente 3 mil pneus por dia, totalizando cerca de 20 toneladas diárias.

Em operação mensal, a planta pode processar aproximadamente 400 toneladas de pneus descartados. O processo industrial começa com o recebimento e armazenamento dos pneus em áreas cobertas para evitar acúmulo de água e contaminação ambiental. Em seguida, os pneus passam por equipamentos de trituração que reduzem a borracha a pedaços menores.

Após essa etapa, os fragmentos seguem para uma peneira classificadora, que transforma o material em chips de borracha com cerca de 50 milímetros de diâmetro.

Durante esse processo, o arame de aço presente na estrutura dos pneus é separado mecanicamente e encaminhado para reciclagem metalúrgica. O restante — composto principalmente por borracha triturada — é destinado às cimenteiras como combustível alternativo de alto poder calorífico utilizado nos fornos de produção de clínquer.

Esse modelo permite aproveitar praticamente todos os componentes do pneu, mas ainda não representa o estágio mais avançado da reciclagem.

Pirólise de pneus: tecnologia que transforma borracha em óleo, gás e negro de fumo
A tecnologia que permite extrair valor máximo do pneu descartado é conhecida como pirólise de pneus. Na queima convencional, a borracha entra em combustão na presença de oxigênio, liberando gases poluentes como monóxido de carbono, dióxido de enxofre e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, compostos potencialmente tóxicos.

 
A pirólise funciona de maneira diferente. Nesse processo, os pneus são aquecidos em reatores fechados sem presença de oxigênio, normalmente a temperaturas entre 400°C e 600°C. O calor provoca a decomposição termoquímica das cadeias de carbono da borracha sem combustão direta.

Esse processo gera três produtos principais simultaneamente:

Óleo pirolítico, um combustível industrial com poder calorífico semelhante ao óleo combustível BPF.
Negro de fumo, um material amplamente utilizado como reforço na fabricação de pneus, tintas, plásticos e compostos industriais.
Gás de síntese, que pode ser reaproveitado para alimentar o próprio reator e reduzir o consumo energético do sistema.
De acordo com a empresa espanhola Greenval Technologies, que desenvolveu sistemas de pirólise em parceria com o Conselho Superior de Investigação Científica da Espanha, esse processo pode gerar até seis vezes menos emissões de CO₂ em comparação com métodos tradicionais de combustão.

A literatura técnica indica que a pirólise de pneus gera, em média:

35% a 50% de óleo combustível
cerca de 41% de negro de fumo
aproximadamente 15% de gás combustível

Na prática, isso significa que 10 toneladas de pneus descartados podem gerar até 5 toneladas de óleo industrial, cerca de 4 toneladas de negro de fumo e gás suficiente para manter o processo ativo.

A taxa de recuperação de materiais pode atingir 98% do peso total do pneu, reduzindo drasticamente o volume de resíduos finais.

Pioneiro Ecometais: empresa brasileira que opera pirólise de pneus desde 2016
No Brasil, uma das empresas que já opera a tecnologia de pirólise em escala industrial é a Pioneiro Ecometais, integrante do Grupo Pioneiro. A empresa iniciou suas atividades em 2007 reciclando baterias de chumbo-ácido automotivas, processo que exige grande consumo de combustível nos fornos de fusão do metal.

Energia e serviços públicos

Para reduzir custos e dependência de combustíveis fósseis, a empresa decidiu investir na pirólise de pneus em 2013, implantando a tecnologia como fonte alternativa de energia industrial.

Os números mostram a escala da operação. Apenas no primeiro semestre de 2024, a empresa processou 2.537 toneladas de pneus descartados, gerando:

Geração energia eólica
990 toneladas de óleo combustível
1.184 toneladas de carvão pirolítico
Esse carvão possui qualidade suficiente para exportação e é enviado para a Pioneiro Ecometais Paraguai, onde é utilizado como insumo energético.

Até 2018, a empresa já havia reciclado cerca de 6 mil toneladas de pneus, produzindo mais de 2 milhões de litros de óleo pirolítico.

Projeto Bio5 pretende construir maior usina de pirólise de pneus do Brasil
Se iniciativas como a da Alagoas Ambiental e da Pioneiro demonstram que a reciclagem de pneus já funciona tecnicamente no país, um novo projeto pretende ampliar essa escala. A empresa Bio5 anunciou a construção da primeira planta de pirólise industrial de grande porte do Brasil, localizada em Cuiabá, Mato Grosso.

O investimento previsto é de R$ 100 milhões, com financiamento do fundo de private equity DMI Group e tecnologia importada da China e dos Estados Unidos. A capacidade projetada da unidade é de 20 mil toneladas de pneus inservíveis por ano, equivalente a aproximadamente 4 milhões de pneus descartados.

Além da produção de óleo e negro de fumo, a planta terá um diferencial: o óleo pirolítico será utilizado para geração de energia elétrica.

Segundo projeções da empresa, a usina poderá produzir eletricidade suficiente para abastecer uma cidade de cerca de 28 mil habitantes. O plano de expansão prevê investimentos adicionais de R$ 500 milhões em novas plantas para reciclar até 20% dos pneus descartados no Brasil.

Pneus levam até 700 anos para se decompor e liberam metais pesados no ambiente

Um pneu automotivo comum pode levar entre 600 e 700 anos para se decompor na natureza. Durante esse período, diversos compostos químicos presentes na borracha podem ser liberados lentamente no ambiente. Entre eles estão benzeno, tolueno, naftaleno, cádmio, cromo, níquel e zinco.

Quando os pneus ficam expostos à chuva, esses compostos podem infiltrar no solo e atingir reservatórios de água subterrânea. Quando queimados, liberam fumaça densa contendo partículas tóxicas e potencialmente cancerígenas.

Enquanto 450 mil toneladas de pneus inservíveis são descartadas por ano no Brasil e cada unidade pode levar até 700 anos para se decompor, empresa em Alagoas processa 3.000 pneus por dia por pirólise sem oxigênio e transforma borracha em óleo industrial, carbono negro e gás combustível.

A tecnologia de pirólise não elimina esses compostos químicos, mas os transforma em produtos industriais antes que sejam liberados de forma descontrolada no ambiente. O óleo é recuperado como combustível, o negro de fumo retorna como matéria-prima para novas borrachas e o aço estrutural é reciclado como sucata metálica.

Brasil possui tecnologia e matéria-prima, mas reciclagem de pneus ainda precisa ganhar escala

O Brasil já possui tecnologia disponível, capacidade industrial inicial e uma grande oferta de matéria-prima: milhões de pneus descartados todos os anos. O desafio agora é ampliar a escala dessas soluções.

Entre as 400 toneladas mensais processadas em Pilar e as 20 mil toneladas anuais projetadas para Cuiabá, existe um espaço enorme para crescimento da reciclagem de pneus no país.

Esse intervalo representa justamente o ponto em que a gestão de resíduos pode deixar de ser apenas um problema ambiental e se transformar em uma nova cadeia industrial de energia, materiais e reciclagem. E é nesse espaço que o futuro de um dos resíduos mais duráveis da sociedade moderna ainda está sendo definido.

Geração energia eólica

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